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Malagueira – Um balanço de 30 anos

Texto de Nuno Ribeiro Lopes

Herdeiro do processo SAAL, elemento de participação e discussão pública, gerador de apoios entusiásticos e ódios profundos, ainda hoje polémico e incómodo.

Caso de estudo nas faculdades de arquitectura de todo o mundo há mais de 20 anos, apresenta-se desde há alguns anos para cá, abandonado pelo poder autárquico que o classificou em 1998 como valor concelhio.

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Em ano de mudança, 1974, Évora encontrava-se rodeada por 32 bairros de génese clandestina, semi-rurais, semi-urbanos. Oficialmente inexistentes, convenientemente afastados algumas centenas de metros, não pertencentes à cidade; o conceito de cidade aplicava-se unicamente à zona intramuros.

Consequência da falência do Plano da Expansão Oeste de Évora, o Plano da Malagueira surge da necessidade sentida pelo poder autárquico de então, de estruturar a área urbana assumindo a sua dimensão real, e ensaiando pólos geradores de urbanidade à imagem e em complementaridade com o centro histórico.

Encaixado entre diferentes estruturas tipológicas – Bairros de St.ª Maria, N. Sr.ª da Glória, Cruz da Picada e Escurinho, o plano assumiu o papel agregador destas realidades físicas e sociais, procurando a resolução no seu interior, nunca deixando de afirmar a sua própria identidade.

malagueira-evoraHabitação inicial de inspiração local, aplicada modularmente, repetida infindavelmente sobre o território nas suas diferentes variáveis, sucessivamente alterada fruto das pré-existências e do público-alvo.

Matriz rígida no núcleo, flexível na periferia, espaço aberto à transformação contínua e ao crescendo de complexidade, livro para colorir pelos actores da cidade.

Laboratório permanente, em que o projecto era sucessivamente informado nas suas fases pela vivência dos diferentes grupos de moradores, o projecto da Malagueira foi capaz de absorver alterações de legislação, de programa, vicissitudes financeiras, campanhas de maledicência.

Ensaiou a resposta que a arquitectura e o urbanismo podem dar a um génese diferenciada de entidades promotoras, baseadas em comunidades ou estratos diferenciados, misturando programas, atribuindo equipamentos nucleares às diferentes áreas do bairro, centralizou o centro propondo a construção de uma praça pública, local de encontro e socialização.

A incomodidade política causada pelo poder das estruturas associativas e/ou cooperativas, determinou sucessivas alterações legislativas que transformaram, na transição para a década de 90, a participação da população na elaboração do projecto, numa mera discussão programática e financeira com a estrutura dirigente.

Perdido o envolvimento inicial, surge o acompanhamento e a discussão durante a construção ou durante as evoluções tipológicas.

malagueira-evoraEsvaída a relação directa entre a equipa de projecto e a população, o controlo da transformação do projecto foi-se perdendo nos corredores técnicos municipais, na incapacidade de obtenção de financiamento à construção de equipamentos, na vontade política de reduzir o protagonismo da realização.

Toda esta mais valia se encontra hoje negada, já que não foi capaz de se auto-polarizar e agregar áreas circundantes, fruto de uma periferização degradante enquanto apresenta problemas de segurança, sociais, patologias construtivas, dissonâncias arquitectónicas, obras inacabadas, equipamentos sub-utilizados ou esquecidos nas gavetas da burocracia.

Pequenos problemas poderão ser resolvidos no imediato ou em curto prazo e que transformarão qualitativamente a imagem e a vida dos moradores:

– Deficiente e insuficiente iluminação pública;

– Espaços Exteriores inacabados, sujos;

– Obras de conservação inexistentes ou executadas sem atenção ao projecto original;

– Zonas comerciais por acabar com ocupação do espaço por galinheiros, jardins, barracas, etc.

– Equipamento por construir, lotes de terrenos eternamente adiados nas suas afectações coarctando alternativas;

– Construções clandestinas.

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Mas, para além destas questões, a Malagueira apresenta problemas de ordem global graves que importa afrontar. Questões sociais e de segurança obrigam a um olhar mais atento e uma visão estratégica dos poderes locais; demonstrada que está a falência do processo de auto-organização a que a comunidade foi deixada, importa realçar a necessidade de elaboração de um estudo global de requalificação social e arquitectónico, enquadrado na figura legal de um Plano de Pormenor, que garanta uma qualidade ambiental e vivencial, compatível com o estatuto cultural que a Malagueira possui, que dê possibilidade mais uma vez à discussão participada.

Parece-nos também evidente que deveria ser o autor do projecto a liderar este mesmo processo que agora se aponta.

Ao Poder Local cabe mais uma vez compreender a cidade, enquanto entidade única na sua diversidade, assumindo a reabilitação, preservação e conclusão do Bairro da Malagueira como uma parte do projecto de construção da Urbe.

BAIRRO DA MALAGUEIRA

Construção de 1200 fogos – 27ha

AUTOR Álvaro Siza Vieira,  Arquitecto

INICIO CONSTRUÇÃO Maio 1979

POPULAÇÃO 4.320 hab. apx.

ESTADO ACTUAL Inacabado

Habitação ≈ 100%; Equipamentos ≈ 20%; Comércio e Serviços ≈ 50%; Espaços livres ≈ 50%

CARACTERIZAÇÃO

Apresenta sinais de degradação acelerada, constatando-se:

– Habitação degradada,

– Obras descaracterizadoras,

– Iluminação deficiente,

– Espaços públicos por concluir e sujos,

– Problemas sociais e segurança,

– Poucos equipamentos,

– Algum comércio local

Nuno Ribeiro Lopes, Évora, 12 de Janeiro de 2008

Fotografias de Manuel Ribeiro, 25 de Maio de 2011

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FRONTEIRAS | Fogueteiro – Seixal

O Fogueteiro pertence à freguesia da Amora, concelho do Seixal.

É um dos dormitórios da Zona Metropolitana de Lisboa. Desenvolveu-se na margem Este do rio Judeu, um pequeno braço do Estuário do Tejo. É fruto do vertiginoso crescimento da Margem Sul nas décadas de 1960/70 em que a ruralidade foi dando lugar à habitação em altura, à instalação de grandes superficies comercias e à consequente rede viária.

Ainda restam algumas hortas, quintas e fábricas, na maioria arruinadas, fantasmas à espera do fatal, às vezes sinistro, golpe imobiliário. E algumas habitações, muitas convertidas para o comércio.

O nó do Fogueteiro é um importante cruzamento da auto-estrada A2 com as estradas que ligam ao Seixal e a  Sesimbra / Setúbal (EN10). O Fogueteiro aparece com frequencia nos boletins matinais das rádios  devido aos conhecidos e desesperantes engarrafamentos de trânsito que amiúde começam nesta zona.

A Av. da Liberdade (nesta foto) é um pequeno troço mesmo à entrada da localidade, dando lugar logo a seguir à Av. 1º de Maio, na direcção do Seixal.

É de notar a toponímia dos arruamentos, em grande número ligados à Revolução (1º de Maio, Liberdade, 25 de Abril ou Humberto Delgado, a principal rua da localidade). Testemunham a forte politização à esquerda da população, na maioria operários fabris, bastantes oriundos do Alentejo.  Muitos foram procurar melhor vida a trabalhar nas grandes fábricas da zona. A defunta Siderurgia Nacional terá sido um dos grandes empregadores, hoje substituída pelas grandes superfícies comerciais e pelos serviços das imediações. Mas será sobretudo fora da localidade que a população da zona trabalha, Lisboa incluída.

Actualmente o Fogueteiro alberga uma importante comunidade africana, talvez em maioria, e uma comunidade cigana assinalável.

Estas fotografias foram feitas no dia 9 de Junho de 2011, num breve passeio, entre as 11h24m e as 11h47m. Mostram a zona da Av. da Liberdade e início da Av. 1º de Maio.

Clique para ver a galeria com todas as 16 imagens.

Fogueteiro - Seixal. Avenida da Liberdade

O fascínio das periferias

A periferia das cidades sempre me fascinou.

Embora quase todo o meu trabalho fotográfico publicado se venha desenvolvendo à volta de temáticas que requerem imagens consensuais, canonicas do ponto de vista formal por força das encomendas, sempre me atraíram estes espaços de transição, estas cascas, sempre caóticas e desordenadas, que é preciso atravessar antes de entrar nas cidades e que pedem fotografias cruas.

Tenho viajado para fotografar monumentos, centros históricos, riquezas patrimoniais, ruas limpas, ordenadas… Porém o melhor do trabalho começa  sempre na estrada, cedo no dia, embalado no conforto da música do autrádio, com o pensamento a vaguear por assuntos que nada tem a ver com as fotografias que se resolverão por si mais adiante.

Acordo da vertigem do asfalto com o embate no primeiro semáforo de controlo de velocidade, que invariavelmente cai para vermelho. A estrada está a acabar e passa a chamar-se rua. É neste espaço de transição que sempre me apetece ficar mais um pouco antes de continuar em frente, para o coração da cidade ordenada pela razão e peso da história, onde ter que resolver o estacionamento já me agasta.

Quando sobram uns minutos adio, desvio-me um pouco e procuro um café. Uma  zundapp à porta tem força de critério. Observo e absorvo a rua esventrada, enlameada, ervada, asfaltada antes de passarem os cabos, as hortas a separar as casas, as garrafas de plástico espanta-pássaros, as bandeiras desbotadas do clube do coração, mais os leões, águias e dragões a guardar as entradas, umas vezes pintados outras não. E prometo sempre voltar um dia, com mais tempo para fotografar com a máquina o que fica por agora registado em intenção .

São essas fotografias, as finalmente materializadas em pixeis e bytes que vão aparecer neste espaço. Porque chegou a hora de rachar o tempo ao meio, para deixar de me amaldiçoar por fotografar tanto só com os olhos.

Évora, vista de um baldio entre a Malagueira e o Alto dos Cucos, num dia a pedir chuva. Fotografias feitas depois de uma paragem para uma bica no Atlantis, o café dos isqueiros.

26 de Março de 2011, 16:51

26 de Março de 2011, 16:45

Arquitectura e Urbanismo das Periferias

| urbarq | pretende ser um espaço alargado de partilha de informação e ideias sobre a arquitectura, o urbanismo e a sociologia das periferias das cidades, um palco onde se cruzem as artes da imagem com opiniões críticas e análises científicas.

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