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Malagueira – Um balanço de 30 anos

08/08/2011

Texto de Nuno Ribeiro Lopes

Herdeiro do processo SAAL, elemento de participação e discussão pública, gerador de apoios entusiásticos e ódios profundos, ainda hoje polémico e incómodo.

Caso de estudo nas faculdades de arquitectura de todo o mundo há mais de 20 anos, apresenta-se desde há alguns anos para cá, abandonado pelo poder autárquico que o classificou em 1998 como valor concelhio.

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Em ano de mudança, 1974, Évora encontrava-se rodeada por 32 bairros de génese clandestina, semi-rurais, semi-urbanos. Oficialmente inexistentes, convenientemente afastados algumas centenas de metros, não pertencentes à cidade; o conceito de cidade aplicava-se unicamente à zona intramuros.

Consequência da falência do Plano da Expansão Oeste de Évora, o Plano da Malagueira surge da necessidade sentida pelo poder autárquico de então, de estruturar a área urbana assumindo a sua dimensão real, e ensaiando pólos geradores de urbanidade à imagem e em complementaridade com o centro histórico.

Encaixado entre diferentes estruturas tipológicas – Bairros de St.ª Maria, N. Sr.ª da Glória, Cruz da Picada e Escurinho, o plano assumiu o papel agregador destas realidades físicas e sociais, procurando a resolução no seu interior, nunca deixando de afirmar a sua própria identidade.

malagueira-evoraHabitação inicial de inspiração local, aplicada modularmente, repetida infindavelmente sobre o território nas suas diferentes variáveis, sucessivamente alterada fruto das pré-existências e do público-alvo.

Matriz rígida no núcleo, flexível na periferia, espaço aberto à transformação contínua e ao crescendo de complexidade, livro para colorir pelos actores da cidade.

Laboratório permanente, em que o projecto era sucessivamente informado nas suas fases pela vivência dos diferentes grupos de moradores, o projecto da Malagueira foi capaz de absorver alterações de legislação, de programa, vicissitudes financeiras, campanhas de maledicência.

Ensaiou a resposta que a arquitectura e o urbanismo podem dar a um génese diferenciada de entidades promotoras, baseadas em comunidades ou estratos diferenciados, misturando programas, atribuindo equipamentos nucleares às diferentes áreas do bairro, centralizou o centro propondo a construção de uma praça pública, local de encontro e socialização.

A incomodidade política causada pelo poder das estruturas associativas e/ou cooperativas, determinou sucessivas alterações legislativas que transformaram, na transição para a década de 90, a participação da população na elaboração do projecto, numa mera discussão programática e financeira com a estrutura dirigente.

Perdido o envolvimento inicial, surge o acompanhamento e a discussão durante a construção ou durante as evoluções tipológicas.

malagueira-evoraEsvaída a relação directa entre a equipa de projecto e a população, o controlo da transformação do projecto foi-se perdendo nos corredores técnicos municipais, na incapacidade de obtenção de financiamento à construção de equipamentos, na vontade política de reduzir o protagonismo da realização.

Toda esta mais valia se encontra hoje negada, já que não foi capaz de se auto-polarizar e agregar áreas circundantes, fruto de uma periferização degradante enquanto apresenta problemas de segurança, sociais, patologias construtivas, dissonâncias arquitectónicas, obras inacabadas, equipamentos sub-utilizados ou esquecidos nas gavetas da burocracia.

Pequenos problemas poderão ser resolvidos no imediato ou em curto prazo e que transformarão qualitativamente a imagem e a vida dos moradores:

– Deficiente e insuficiente iluminação pública;

– Espaços Exteriores inacabados, sujos;

– Obras de conservação inexistentes ou executadas sem atenção ao projecto original;

– Zonas comerciais por acabar com ocupação do espaço por galinheiros, jardins, barracas, etc.

– Equipamento por construir, lotes de terrenos eternamente adiados nas suas afectações coarctando alternativas;

– Construções clandestinas.

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Mas, para além destas questões, a Malagueira apresenta problemas de ordem global graves que importa afrontar. Questões sociais e de segurança obrigam a um olhar mais atento e uma visão estratégica dos poderes locais; demonstrada que está a falência do processo de auto-organização a que a comunidade foi deixada, importa realçar a necessidade de elaboração de um estudo global de requalificação social e arquitectónico, enquadrado na figura legal de um Plano de Pormenor, que garanta uma qualidade ambiental e vivencial, compatível com o estatuto cultural que a Malagueira possui, que dê possibilidade mais uma vez à discussão participada.

Parece-nos também evidente que deveria ser o autor do projecto a liderar este mesmo processo que agora se aponta.

Ao Poder Local cabe mais uma vez compreender a cidade, enquanto entidade única na sua diversidade, assumindo a reabilitação, preservação e conclusão do Bairro da Malagueira como uma parte do projecto de construção da Urbe.

BAIRRO DA MALAGUEIRA

Construção de 1200 fogos – 27ha

AUTOR Álvaro Siza Vieira,  Arquitecto

INICIO CONSTRUÇÃO Maio 1979

POPULAÇÃO 4.320 hab. apx.

ESTADO ACTUAL Inacabado

Habitação ≈ 100%; Equipamentos ≈ 20%; Comércio e Serviços ≈ 50%; Espaços livres ≈ 50%

CARACTERIZAÇÃO

Apresenta sinais de degradação acelerada, constatando-se:

– Habitação degradada,

– Obras descaracterizadoras,

– Iluminação deficiente,

– Espaços públicos por concluir e sujos,

– Problemas sociais e segurança,

– Poucos equipamentos,

– Algum comércio local

Nuno Ribeiro Lopes, Évora, 12 de Janeiro de 2008

Fotografias de Manuel Ribeiro, 25 de Maio de 2011

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From → periferias

One Comment
  1. Nicolas y Romina permalink

    Hola Nuno Ribeiro Lopes, somos estudiantes de arquitectura y estamos analizando este proyecto. tenemos que hacer un trabajo sobre el conjunto malagueira. nos gustaria saber como vive la gente en la actualidad, si hay relacion entre ellos, si cuidan los espacios publicos, si hay interes en preservar la arquitectura del lugar, si hay seguridad, servicios, buena calidad de vida. cualquier dato que nos puedas proporcionar sobre como es la vida en la actualidad nos va a servir mucho.

    Desde ya muchas gracias.
    Saludos Cordiales, Nicolas y Romina.

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